(Recuperando um antigo
post)
Tudo começou quando Freud
adivinhou no ambíguo sorriso das mulheres pintadas por Leonardo da
Vinci a ternura sublimada mas inquieta por uma mãe longínqua.
Da
leitura do livro de Sigmund Freud “Uma recordação de infância de
Leonardo da Vinci” (Relógio D’Água Editores, Setembro 2007) ressalta o
quanto a ausência da mãe do grande artista Renascentista o influenciou e
limitou em alguns dos aspectos da sua vida enquanto homem e enquanto
artista, tornando-o num “menino triste”.
De facto, como escrevi num dos primeiros posts deste Blog,
uma criança pode tornar-se numa “criança triste” se não crescer nos
braços da sua mãe, ou se não vir os seus sonhos tornarem-se realidade.
Com efeito, Leonardo da Vinci,
que se sabe ser filho ilegítimo de Ser Piero da Vinci, notário, e de
Caterina que era provavelmente camponesa, à qual foi arrancado quando
tinha a idade entre três e cinco anos, para ir viver com o pai e com a
terna e jovem madrasta Donna Albiera, a mulher de seu pai.
Leonardo
terá guardado saudade imensa da sua mãe, que terá reencontrado quando
tinha 41 anos, em 1493, quando esta o foi visitar a Milão. Reencontro
infeliz, já que Caterina adoeceu e veio a falecer; as notas tomadas por
Leonardo quanto às despesas com o seu funeral assim o confirmam.
Freud,
através da observação dos sorrisos das figuras femininas pintadas em A
Virgem com o Menino e Stª Ana (c. 1508-1513) consegue ver neles o mesmo
sorriso que Leonardo pintou no quadro Mona Lisa del Giocondo. Segundo o
autor, o sorriso de Mona Lisa terá despertado em Leonardo, já adulto, a
recordação da mãe dos seus primeiros anos de infância.
[...]Quando
Leonardo, chegado ao apogeu da sua vida, voltou a encontrar o sorriso
de bem-aventurado êxtase que outrora animara a boca da sua mãe quando
ela o acariciava, encontrava-se desde há muito sob o domínio de uma
inibição que lhe proibia voltar a desejar tais carícias dos lábios de
uma mulher. Mas tornou-se pintor e por isso esforçava-se por reproduzir
com o pincel este sorriso em todos os seus quadros, e não só naqueles
que ele próprio executou mas também nos que fez executar pelos seus
discípulos, sob a sua orientação, tais como a Leda, o S. João Baptista e
o Baco.[...]
Aliás, o sorriso de Mona Lisa
serviu também de mote a uma história d’O Menino Triste, chamada
exactamente “
O Sorriso” que pode ser vista alguns
posts atrás, neste
Blog.